A NOSSA ROMARIA

A Romaria da nossa Vila tem vindo a evoluir nos últimos anos, a vários níveis, tanto em quantidade como em qualidade. Por este facto, criamos esta página na Internet, para assim descrever e mostrar através de muitas imagens a nossa Romaria, desde os nossos antepassados, desde a reabertura do rancho no ano 2000 e também a evolução da romaria até hoje.

A preparação dos Romeiros não deve, não pode mesmo, resumir-se aos “ensaios”. Diria: menos ensaios, mais preparação. A vivência da Romaria, já todos sabem e concordam, depende de uma boa preparação.
Por este motivo temos de consciencializar os nossos irmãos Romeiros das realidades que podem acontecer, viver e sentir na semana da Romaria, para tal, devem ser estudadas ou lembradas as muitas virtudes e graças das Romarias.
Como é do conhecimento de toda a comunidade, a nossa Romaria não se realizou durante 21 anos, e por este motivo foi muito difícil na nossa paróquia reiniciar um Rancho oriundo da nossa Vila. Recorremos assim a outras localidades, nomeadamente à freguesia da Ribeirinha, que através do empenhamento do seu Mestre, os irmãos Marienses e apoio de alguns irmãos mais experientes, formamos um grupo coeso, capaz de levar avante a Romaria da nossa Vila.
Actualmente a nossa Romaria tem um número razoável de irmãos, que conseguem dar continuidade à tradição das Romarias Quaresmais.
Não vamos numa Romaria por acaso, respeitam-se as “promessas”, mas mesmo nelas, há um chamamento de Deus, porventura, para a nossa conversão. Se respondemos “sim” a este primeiro apelo de Deus, temos de nos preparar para o que vem a seguir: a Romaria propriamente dita. Como Jesus Cristo disse: “Vem e segue-Me, farei de ti pescador de homens”. (Mt 4, 19-22).
O sucesso de uma romaria depende de uma boa preparação, preparação esta que deverá ser de acordo com as normas do Regulamento. Cabe aqui recordar que insistimos com os novos Romeiros, aos que estão indecisos, que nada perdem (antes pelo contrário) em participarem das reuniões de preparação, mesmo que acabem por não ir, já “viveram” um pouco a Romaria, através dos ensinamentos e partilha, vividas durante a preparação.
A todos bem hajam.

Irmão Mestre,

Carlos Vieira

Ler mais: http://romariavilafranca.webnode.pt/

SOU ROMEIRO

A minha romaria começou quando decidi que faria parte do grupo de romeiros da freguesia da Ponta Garça… A ausência de fé e a crença a dissipar-se diariamente foram os primeiros impulsos pessoais a despontar esta vontade. Estes factores associados a uma enorme vontade de ter a mesma experiência que teve o meu pai no ano de 2000 foram determinantes para querer ir de romeiro.

A expectativa era muita, as dúvidas e a inquietude aumentavam e tomavam conta de mim a cada dia que passava.

Finalmente chegou a hora da partida, o rancho estava formado e entoavam-se os primeiros cânticos de oração – começava a minha romaria. Durante 8 dias estive integrado num rancho de homens com idades muito díspares e não compreendia muito bem como se ligavam todas estas almas juntas num rancho – qual a pertinência destes irmãos mais novos juntamente com outros que já levavam décadas de romaria?!? Com o passar do tempo tudo começou a fazer sentido, tudo se tornou lógico, pelos testemunhos, pelas conversas pontuais ou pelas vivências e conhecimentos de cada um… A harmonia que se foi instaurando com o passar dos dias potenciou a entrega de todos os irmãos,  potenciou a partilha e, acima de tudo, a união entre todos –  assim nasceu uma família, uma nova família.

Os dois primeiros dias foram radiantes, tudo era novidade, tudo tinha cor, cheiro e forma. Também existia nestes dias mais “ruído mental” e a entrega e concentração não estavam optimizadas. A despedida da freguesia dos arrifes foi, sem dúvida, um marco na romaria do rancho da ponta garça – é a partir desse dia que se começa a sentir a verdadeira doçura da romaria. Quando a escuridão abraça os olhos, a maneira mais eficaz de se caminhar é a oração; entregamo-nos com uma confiança cega nos nossos guias, a silhueta do irmão da frente é referência e as palavras do Irmão Mestre são ordens de comando para a nossa peregrinação. Rezamos num silêncio ensurdecedor e a luz começa a ganhar forma, o caminho fica para trás e a família transporta-se na fé e na compaixão de uns pelos outros.

Nos cinco dias seguintes fomos recolhidos e “arrumados” na casa de várias famílias nas freguesias que pernoitamos, e de tudo o que vivenciei nesses dias, relembro com saudade o amor, a dedicação e o carinho que estas famílias foram demonstrando – tanto nos deram! Mas, mais do que isso, relembro a esperança, a fé e o amor incondicional que estas famílias depositam nos romeiros, a entrega das suas preces, das suas dores e das suas intenções, como se estes fossem os profetas de Deus, como se fossemos verdadeiros anjos.

Nos últimos dois dias as pernoitas foram conjuntas, em salões, já com o cansaço a dominar a maior parte do tempo e a gestão do esforço físico juntamente com o esforço psicológico tornam-se determinantes para a superação diária. o Romeiro é um homem de superação diária, e quanto mais perto estamos de casa, a superação pode ser horária, somos testados até ao último minuto.

As mensagens de Deus vão começando a fazer sentido – tudo o que se ouve, vê ou lê tem o seu significado, muitas vezes da forma que menos esperávamos. Até podem nem estar a falar diretamente para nós, mas a “moral” da história é essa mesmo – só precisamos de estar predispostos a receber essas mensagens e para ouvi-las é preciso escutar mais do que falar. Para mim, muito do que fui ouvindo durante a minha romaria só começou a fazer sentido nos últimos dias, nas últimas caminhadas – que paz, que sentimento, que maravilha…

A fé e a crença fazem parte de mim novamente, sinto-me uma Fénix, implodi nas cinzas e delas renasci, mais jovem, mais bonito, mais bondoso, não na minha imagem, mas na minha alma, nas minhas palavras e no meu amor ao próximo.

Como diz uma música “…sou ilhéu, sou baleeiro, agora também sou romeiro…”

Uma vez Romeiro, para sempre Romeiro.

 

Seja sempre louvada a sagrada paixão, morte e ressurreição de nosso senhor Jesus Cristo.

Romeiro de Ponta Garça

Opinião: O Romeiro na sociedade micaelense

O Romeiro Raul Medeiros artigo opiniaoAs Romarias Quaresmais de S. Miguel têm vindo a ter um aumento de participantes nas últimas três décadas, quer no número de Ranchos como no número de Romeiros. O Romeiro atualmente é transversal à sociedade micaelense, de todos os estratos económicos, culturais e espirituais, dando por isso uma maior inserção entre o Romeiro e a sociedade micaelense, pois nas suas alas, anualmente, estão cerca de dois mil e quinhentos homens, que depois durante os restantes 357 dias estão ligados a todos os cantos da ilha, a cada grupo da sociedade, deixando sair de si para os que os rodeiam o que apreenderam durante os 8 dias da caminhada da Romaria.

Em cada ano caminham pelas estradas de S. Miguel, orando, partilhando, contemplando: professores universitários e alunos, gestores e operários, poetas e iletrados, artistas e homens rudes, médicos e desempregados, homens de grande fé e descrentes, avôs e netos. Esta grande heterogeneidade faz terem as Roma- rias, cada dia mais, um muito grande elo com a sociedade da ilha de S. Miguel.

Muitos Romeiros levam o olhar de Cristo, que aprenderam a ter durante a Romaria, para a sua ação diária, nas suas relações familiares e de amizade, para as suas relações profissionais e sociais. Cada vez mais existem Romeiros na vida associativa de cariz desportivo, artístico e acima de tudo social, na vida paroquial e até politica.

Existem muitas ações de solidariedade social levadas a cabo por diversos Romeiros e por Ranchos, que ajudam, do melhor modo que conseguem, os que em determinada altura necessitam, como por exemplo, fazendo recolha e entrega de bens alimentares e de vestuário, dando explicações a crianças necessitadas, oferecendo mão de obra para recuperação de edifícios de habitação ou comunitários, doação de sangue, partilhando algum do seu tempo com os que necessitam de quem os escute, faça companhia ou dê voz e visibilidade.

Talvez tenha chegado mais um momento de viragem nas Romarias Quaresmais de S. Miguel: aproveitar as potencialidades e capacidades dos Romeiros, as sinergias e boas vontades, envoltas num manto cristão, para ajudar o próximo com a maior dignidade e humildade, passando de ações individualizadas para ações o mais abrangente possíveis, com interligação entre os diversos Ranchos e Romeiros que têm o mesmo objetivo.

Para esta nova meta é necessário organização, metodologia e coordenação, pois entre os Romeiros existem homens com muita capaci- dade, conhecimento e boa vontade. Estes três itens são fáceis de serem atingidos, pois eles já existem há séculos na organização das Roma- rias, só necessitando de os passar para os restantes dias do ano, para a intervenção das Romarias Quaresmais na sociedade micaelense.

Os primeiros passos já foram iniciados com a constituição de três equipas pelo Grupo Coordenador – a da Formação, a da Cultura e a Comunicação – aproveitando os conhecimentos profissionais de alguns Romeiros nestas áreas, ao serviço de todos.

Agora terá de ser dado um novo passo na intervenção social do Movimento de Romeiros de S. Miguel, continuando a serem feitas as ações por Rancho e por Romeiro, mas serem juntas a estas, grandes ações gerais, envolvendo todo o Movimento. Aproveitar, potenciar e agregar os conhecimentos, as capacidades e a vontades de bem fazer, que existem, colocando-os de forma organizada ao serviço de quem mais necessita.

Os que já estão motivados conseguem motivar os restantes, os que têm experiência ajudam os que têm vontade, mas nunca o fizeram, os que sabem ensinam os que desconhecem, os organizados disciplinam os que tudo querem fazer, os técnicos auxiliam os que querem aprender a bem fazer, os decididos despertam os vacilantes. Assim uni cados ao redor do Movimento, além do muito que já fazem poderão muito mais fazer, em prol dos que mais precisam.

*Raúl Medeiros é irmão do Rancho de Romeiros de São Pedro, Ponta Delgada, e membro da equipa de comunicação e cultura do Movimento de Romeiros de São Miguel

(Texto publicado na página dos romeiros, na edição de 9 de setembro do jornal A Crença)

Romeiros do Arcanjo São Miguel. Opinião de Fernando Castro

Caros Irmãos e Amigos,

Na minha condição de romeiro, tomei a liberdade de vos dirigir estas linhas, a fim de partilhar convosco a minha satisfação por, em boa hora, o “Movimento de Romeiros de São Miguel” ter decidido proceder a “um levantamento e recolha, de todo o material existente relativo à história e vida deste Movimento”.
Penso ser da maior importância esta vossa iniciativa (e eventualmente outras, como a da criação de um museu do romeiro), que considero a todos os títulos louvável, o que irá certamente permitir uma maior compreensão e aprofundamento (apesar do que já foi até agora compilado e escrito) sobre as raízes, a história e a espiritualidade desta maravilhosa devoção, que eu próprio decidi abraçar com entusiasmo desde 1983.
Embora não tendo nascido em S. Miguel, devo confessar-vos que me senti fascinado, desde a primeira hora em que para cá vim viver (1980), pela “nossa” cultura religiosa e seus valores. Enfim, por tudo aquilo que o devoto sacerdote e escritor vilafranquense, Padre Ernesto Ferreira, conseguiu, com mestria, descrever no seu livro intitulado “A Alma do Povo Micaelense”.
Se me é permitido, gostaria de partilhar convosco uma curta passagem do referido livro, sobre os Romeiros:
“Não queiras desarreigar de seus corações a mimosa flor da fé; não queiras quebrar o vaso que encerra o perfume das tradições que receberam de seus maiores e que conservam como a mais preciosa herança. Arrancar da alma popular a ideia do maravilhoso, o sentimento de religiosidade, é um crime nefando, porque é tirar-lhe toda a esperança de gozo e de felicidade.”
Pela boca do ilustre sacerdote, se consegue perceber do alto grau de estima que o mesmo nutria pelos Romeiros, e da sua enorme preocupação em querer manter intacta (sem desvios) esta multissecular devoção. Na verdade, não podemos nunca cair na tentação de a querer “modernizar”, ou de querer criar algo de novo que a venha descaracterizar.
Este excerto permite-nos ainda entender muito sobre valor da fé, da alegria e da felicidade que os nossos irmãos romeiros que nos precederam traziam nos seus corações. Nós, também já tivemos a felicidade de experimentar esses mesmos sentimentos.
Como sabeia, os “Romeiros do Arcanjo São Miguel” são um Movimento de oração, de doação e de partilha, alegre e bem-disposto, não obstante as dores, os sacrifícios e as dificuldades, maiores ou menores, que cada romeiro enfrenta na sua caminhada. Sabemos, irmãos romeiros, que não caminhamos sozinhos nesta nossa aventura espiritual: vamos sempre acompanhados e amparados pela Sagrada Família de Nazaré.
“Irmãos: quantos são?”, perguntam os que nos pedem orações. “Somos 38”, responde o irmão “procurador das almas”. Efectivamente, somos 35 irmãos + 3 (Jesus, Maria e José). Assim, como sabeis, está sempre presente connosco a Sagrada Família de Nazaré, que é o modelo perfeito das famílias cristãs. Podemos afirmar que uma das características, ou carisma, deste movimento é o amor à família. Quantos milhares de famílias, para além das nossas, vivem a Romaria, nos apoiam, rezam por nós e nos acolhem nas suas próprias casas? Aqui referimo-nos, obviamente, ao único e exclusivo modelo, natural, de família, querido por Deus e defendido pela Sua Igreja.
Neste contexto, seria talvez oportuno partilhar convosco uma das mais recentes intervenções do nosso Papa Francisco: “Hoje é a memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria de Fátima. Caros jovens, aprendei a cultivar a devoção à Mãe de Deus, com a recitação diária do Rosário; prezados enfermos, senti Maria presente na hora da cruz; e vós, amados recém-casados, invocai-A para que na vossa casa nunca falte o amor nem o respeito recíproco.” (Audiência Geral de 13 de Maio de 2015).
Não encontrarão eco estas reflexões do Santo Padre nos “Romeiros do Arcanjo São Miguel” que, com as contas do Rosário na mão, cantando a Ave-Maria, visitam as “casas de Nossa Senhora”?
Ignorar estas realidades objectivas parece-me, queridos Irmãos, não se ter entendido ainda a verdadeira natureza das “Romarias”.
Pelo facto de sermos “Ranchos de Romeiros do Arcanjo São Miguel”, não o somos menos “Ranchos de Romeiros de Nossa Senhora”, ou “Ranchos de Jesus”.
Usando este mesmo tipo de argumentação (bastante em voga na nossa diocese, infelizmente) não faria qualquer sentido que congregações e ordens religiosas que não ostentam o nome de Jesus nas suas designações, fossem, por esse facto, menos pertença de Jesus. Seria absurdo pensar-se, que pelo facto de se denominarem “Irmãs Servas de Maria Imaculada”, “Congregação de S. José de Cluny”, “Franciscanos da Imaculada Conceição”, estas instituições da Igreja, fiéis ao seu carisma, estivessem mais afastadas de Jesus, do que outras que ostentam o Seu nome. Com toda a franqueza: não estaremos a cair em preciosismos ou modas teológicas que nada têm a ver com a doutrina católica?
Há que respeitar e defender, caros irmãos, a verdade e a integridade dos “Romeiros do Arcanjo São Miguel”. É um dever sagrado de todos os romeiros, ao qual não podemos fugir. Como nos ensina o Papa Francisco, “na piedade popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma força activamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a obra do Espírito Santo.” («Evangelium Gaudium», n.º 126).

Um abraço fraterno do irmão Fernando Castro